18/12/2025 . Pai
Hoje o meu pai faria 66 anos, se fosse ainda vivo. Quando fez 46, nós não sabíamos que esses 46 seriam o último ano completo que poderíamos usufruir de tanto que nos dava a sua presença física nas nossas vidas. Por mim falo: de chão, segurança, pertença a este plano terreno. Sem ele, tudo isso se perdeu.
Naquele ano eu estava longe de saber, longe de viver com consciência que temos de aproveitar ao máximo uns aos outros. Nesse ano eu não estive com ele tanto assim; vivíamos a 500 km de distância. Eu vinha a casa para aí uma vez por mês. Nesse ano ele foi ter comigo ao Alentejo uma vez, mas fazíamos parte da vida um do outro. Ele sabia sempre se eu estava bem ou não, se precisava de alguma coisa, e tinha sempre a palavra mais certeira de todas para mim.
Sempre foi, aos meus olhos, o melhor pai do mundo e acredito que está, aos poucos, a voltar a ser. Naquele ano, sem saber, eu era feliz, realmente feliz. Estava rodeada de pessoas incríveis que continuo a ter no coração como família. Os meus amigos de Beja sentiam-me eu, porque me sentia segura, suportada pela minha rede de amor onde o meu pai era rei.
No outro dia ouvi de alguém que “viver no passado é depressão e viver no futuro é ansiedade”. Arrisco-me a completar que viver no presente deve ser saúde mental. No entanto, hoje sei que esse presente, por momentos, pode estar bem oco, bem vazio. E assim estive eu por demasiado tempo num presente totalmente vazio de mim. Numa saúde mental enganadora de extrema inconsciência, tanto para mim como para todos à minha volta.
©CatarinaMontenegro, 2026