GUGGENHEIM BILBAO
in situ: Refik Anadol
Em 2025 frequentei uma pós-graduação em Lighting Design na Escola de Lighting Design. Nessa formação tive uma disciplina no módulo 9 — Luz: Percursos Históricos e Linguagens Contemporâneas — lecionada pela jornalista, curadora e investigadora de arte contemporânea Julia Flamingo.
Sempre fui admiradora de arte — segundo a minha mãe, desde antes de me lembrar disso — e esta foi, sem dúvida, uma disciplina que gostei mesmo muito. Não apenas pelo conteúdo, mas pela forma como foi conduzida. A professora trouxe-me artistas inspiradores que eu nunca tinha ouvido mencionar. Entre todos, houve um que se destacou imediatamente: o artista contemporâneo Refik Anadol.
Até então, confesso que nunca tinha ouvido falar do seu trabalho. Fiquei cativada e intrigada. A inteligência artificial como meio de criação artística era algo que eu conhecia de forma distante, nunca nesta escala, nunca com esta profundidade. A semente foi lançada em aula e eu fui investigar.
Segundo a Wikipédia, Refik Anadol é um artista de multimédia turco-americano, cofundador do Refik Anadol Studio e do Dataland, reconhecido como pioneiro na estética da visualização de dados e das artes de inteligência artificial. O seu trabalho cruza arte, tecnologia, ciência e arquitetura, explorando memória coletiva, natureza, espaço, tempo e a relação entre humanos e máquinas, através de experiências imersivas, performances audiovisuais, exposições e esculturas de dados.
Durante essa pesquisa percebi que estava patente uma exposição sua no Museu Guggenheim Bilbao. Não consegui resistir à possibilidade de ir a uma exposição dele. Pegámos na carrinha e fomos os três numa aventura de quatro dias e mais de 2000 km. Falarei dessa viagem noutro texto do diário; aqui, o foco é mesmo este artista.
Como já devem saber, gosto de escrever, de música, de dança, de arte. Hoje começo a perceber que sou uma pessoa altamente sensível — no sentido literal da palavra. Sinto tudo de forma muito interior, muito profunda. A arte sempre foi essencial para mim precisamente pelo que me faz sentir, e não apenas pelo que me faz pensar.
Não é algo que eu consiga verbalizar com facilidade. A arte que me toca provoca emoção, vibração, inquietação, completude. É quase uma absorção pela pele adentro. Por isso admiro tanto quem tem o dom da comunicação e consegue traduzir em palavras o que vê e sente. Quando algo artístico me atravessa, fico geralmente sem palavras, incapaz de verbalizar a sensação e o impacto que tem em mim.
Nesta exposição aconteceu algo diferente.
Consegui explicar, porque é que aquilo é arte — mesmo sendo criado com ajuda da inteligência artificial, ou por meio desta, mesmo sendo um tipo de arte ao qual ainda nos estamos a habituar. Acredito que para muitas pessoas, sobretudo fora do meio artístico, ainda seja difícil reconhecer estas obras como arte.
Este novo caminho transcende o conceito clássico. Mistura imagem, fotografia, vídeo, movimento. Cria transformação, dinâmica, narrativa. Mas acrescenta algo que, para mim, é determinante: uma experiência física.
Durante a exposição, algumas pessoas podem sentir uma ligeira tontura, vertigem. Em mim, essa sensação não gera medo. Pelo contrário. Faz-me sentir noutra dimensão. É uma experiência onde o controlo físico não é constante. É uma viagem que vai para além da mente e entra no corpo. Mesmo sendo uma sensação subtil e que algumas pessoas possam não sentir nada, ou descrever diferente.
É aqui que, para mim, a arte dá um salto. Torna-se performance vívida. Se nos permitirmos absorver o que este artista nos oferece — sem tentar compreender tudo racionalmente — algo acontece no inconsciente. Em mim acontece. Sinto uma expansão, uma experiência humana mais ampla, uma presença absoluta no momento.
Não é apenas visitar uma exposição. De alguma forma, passa a fazer parte de nós, do nosso caminho e da nossa aprendizagem nesta experiência terrena.
Acredito profundamente que artistas fazem serviço público. Plantam mudanças internas, semeiam crescimento, mesmo quando não chegamos a conclusões claras. O simples exercício de tentar compreender o que sentimos já é um passo para dentro.
Sinto-me com mais vontade de me assumir como artista depois de ter conhecido o trabalho de Refik Anadol. O que mais me prende, a nível mental, é perceber como alguém apenas um ano mais novo do que eu conseguiu ir tão longe na expressão da sua visão. A coragem de manifestar ideias, de as tornar reais, de construir um universo próprio.
Foi, sem dúvida, o artista que conheci em 2025 que mais me marcou e me abriu horizontes.
Este texto é uma tentativa de me exprimir, de partilhar conhecimento e de dar a conhecer artistas extraordinários que estão a criar agora, no mesmo tempo que nós. Artistas vivos, acessíveis, que podemos acompanhar enquanto o trabalho acontece. Deixar-nos tocar, questionar e inspirar em tempo real é, para mim, uma forma consciente de estar presente no mundo — e de continuar a aprender através da arte.
©CatarinaMontenegro, 2026