Agridoce
Susan Cain
Um olhar sensível sobre a melancolia e o que ela revela de mais humano em nós.
⭐ AGRIDOCE — Reflexão
“Agridoce” foi um dos livros que mais me marcou nos últimos anos.
Lembro-me do alívio que senti ao ver a melancolia tratada com dignidade — não como fraqueza, mas como uma linguagem profunda que tantas pessoas reconhecem, mesmo quando não sabem nomeá-la.
Susan Cain escreve sobre a beleza da dor, da nostalgia e da saudade com uma sensibilidade rara. Fala da música que nos atravessa, do cinzento dos dias que nos conforta, da arte que nasce do que não conseguimos explicar.
E talvez eu tenha lido este livro no momento certo: já tinha acumulado memórias, músicas, filmes e uma espécie de entendimento silencioso sobre o que é viver com este estado “agridoce”.
É um livro que me emocionou e, sobretudo, me deu vontade de escrever mais.
Faz-nos olhar para dentro com honestidade, sem pressa, e reconhecer que a melancolia também é um lugar fértil — uma forma de ligação ao mundo, às pessoas e a nós próprios.
Recomendo este livro, e todos os da autora, a quem procura compreender-se melhor e a quem gosta de viver com profundidade.
📌 Passagens que me marcaram
Página 53
““Estará a criatividade associada ao pesar, à nostalgia - e à transcendência?
De toda a dor de que não se consigam desfazer façam a vossa oferenda criativa.
Chegou a altura de começarmos a rir e a chorar e a chorar e a rir sobre tudo isso de novo."
LEONARDO COHEN,
«So Long, Marianne».
Páginas 37
“A nostalgia é também a derradeira musa. «A minha vida artística», diz o compositor e poeta Nick Cave, «centrou-se em redor do desejo ou, mais precisamente, da necessidade de articular os sentimentos de perda e nostalgia que desde há muito assobiam através dos meus ossos e murmuram no meu sangue». A pianista e cantora Nina Simone foi apelidada «alta sacerdotisa da soul», porque a sua música era plena de nostalgia por justiça e amor. Os espanhóis chamam-lhe duende: o centro ansioso e escaldante da dança do flamenco e de outras formas artísticas de um coração ardente. Os escritores portugueses têm o conceito de saudade, uma nostalgia docemente penetrante, muitas vezes expressa musicalmente, por algo profundamente valorizado, há muito desaparecido, que poderá, logo à partida, nunca ter existido. No hinduísmo, diz-se que o viraha - a dor da separação, em geral do ser amado - é a fonte de toda a poesia e de toda a música. A lenda hindu diz que Valmiki, o primeiro poeta do mundo, foi atraído para a poesia depois de ver uma ave a chorar pelo companheiro, que fazia amor com ela quando foi morto por um caçador. «A nostalgia em si é divina», escreve o líder espiritual hindu Sri Sri Ravi Shankar. «A nostalgia pelas coisas mundanas torna-nos inertes. A nostalgia pelo infinito enche-nos de vida. A habilidade é suportar a dor da nostalgia e seguir em frente. A verdadeira nostalgia provoca espasmos de felicidade.»”
Página 127 e 128
"Hoje em dia, Susan David ensina clientes, incluindo as Nações Unidas, a Google e a Ernest & Young, sobre «agilidade emocional», a qual define como um processo de «considerarem sem apego as emoções e os pensamentos difíceis, encarando-os com coragem e compaixão e, depois, ultrapassá-los para propulsionar a mudança na nossa vida». Contudo, quando observa a nossa atual cultura global do trabalho, vê muitas pessoas agarradas à situação em que ela se encontrava logo depois de ter perdido o pai aos 15 anos, quando ainda exibia um sorriso público e vomitava o gelado em privado. Vê uma «tirania da positividade» em que nunca devem chorar, mas, se não conseguirem evitá-lo, então, por favor, façam-no em silêncio, fechados na casa de banho.
Para Susan, isto é um grande problema. Não apenas porque é simplesmente melhor ver a vida com clareza, em toda a sua agridoçura. Mas também porque, se não nos permitirmos sentir as emoções difíceis, como a tristeza e a nostalgia, então estes sentimentos irão corroer-nos a cada oportunidade. «A investigação sobre a repressão emocional mostra que, quando as emoções são afastadas ou ignoradas, tornam-se mais fortes», disse Susan à audiência na sua popular TED Talk. «Os psicólogos chamam-lhe amplificação. Como esse delicioso bolo de chocolate que está no frigorífico - quanto mais tentam ignorá-lo... maior a sua atração. Poderão pensar que controlam as emoções indesejadas quando as ignoram, mas, de facto, são elas que vos controlam. A dor interna vem sempre ao de cima. Sempre, e quem paga o preço? Somos nós. Os nossos filhos, os nossos colegas, as nossas comunidades."
⭐ O que este livro significa para mim
Este livro ajudou-me a dar nome a algo que sempre senti, mas nunca tinha organizado dentro de mim.
Percebi que a melancolia não é um desvio, mas uma forma legítima de estar no mundo — uma sensibilidade que aproxima, que afina o olhar e que permite ver beleza onde muitos só veem ausência.
“Agridoce” deu-me clareza para perceber porque me tocam tanto certas músicas, certos dias, certas memórias.
E ajudou-me a olhar para essa sensibilidade com respeito, em vez de a tentar encaixar nos ritmos rápidos do quotidiano.
Foi um livro que confirmou algo simples, mas poderoso:
sentir profundamente não é um peso — é um talento.
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©CatarinaMontenegro, 2026