Quando o corpo diz não
Gabor Maté
Um livro sobre a ligação invisível entre emoções, limites e doença — explicado de forma humana e rigorosa.
⭐ QUANDO O CORPO DIZ NÃO — Reflexão
Este livro abriu-me uma visão mais ampla sobre a relação entre saúde emocional e doença.
O autor, Gabor Maté, defende — com base em décadas de experiência clínica — que existe uma ligação direta entre a forma como vivemos as emoções, como nos relacionamos com os outros e connosco, e o aparecimento de doenças, especialmente autoimunes, oncológicas e do foro psicológico.
Achei particularmente interessante a forma como insiste que os médicos deveriam conhecer melhor os seus pacientes — não apenas os sintomas, mas a sua história, os traços da sua personalidade, o modo como lidam com limites, com expectativas e com a própria vulnerabilidade. É algo que falta muitas vezes na prática clínica.
Foi também o primeiro livro que li que desafia a ideia do “pensamento positivo” como regra universal. Ele explica, de forma sensata, que o pensamento negativo tem a sua função, pode ser legítimo e até saudável — e que abafá-lo pode, por vezes, ser prejudicial.
É um livro profundo, cheio de exemplos reais e de uma compaixão silenciosa que atravessa cada página. E há muito mais para descobrir, mas deixo esse mergulho a quem sentir o apelo.
Vale muito a pena ler.
📌 Passagens que me marcaram
Páginas 114 e 115
“A última enxaqueca que tive foi na Unidade de Cuidados Paliativos, há quase três anos, quando o médico responsável me disse que eu devia transmitir à Barbara Ellen que não havia mal se ela morresse.
“Ela quer a sua permissão para morrer”, disse ele gentilmente. Estávamos numa sala privada reservada especialmente para pessoas como eu. As pessoas mais infelizes da terra.
“Que se dane!” Reagi violentamente, chocada e horrorizada com a sugestão. “Ela não tem a minha permissão para morrer! Eu proíbo-a...” Por essa altura, tinha-me ido completamente abaixo e estava a soluçar de forma desvairada. O médico esperou pacientemente. Ele estava habituado a esta reação. Aquele era o trabalho dele.
“Sra. Krawczyk, penso que compreende que o sofrimento da Barbara Ellen irá agora simplesmente aumentar, a cada hora que passa.”
“Ela não está a sofrer! Ela tem a borboleta no braço. Ela falou com as irmãs e com o pai esta manhã, ainda ontem viu amigos, esteve a falar com o filho pequeno e a abraçá-lo.”
“Isso foi uma dádiva. Uma dádiva que ela deu aos entes queridos. Para dizer adeus a todos. A senhora é a única de quem ela ainda não se despediu. Ela quer fazer isso agora. Ela quer a sua permissão para partir.”
“Oh, por favor, não! Quem é que o senhor pensa que é, Deus? Como é que sabe que esta é a hora da morte dela?”
E depois só me restava implorar. “Dê-me mais alguns dias, por favor. Por favor, volte a pôr-lhe o soro.”
“Ela não quer. Tem de ser suficientemente forte para dar à sua filha aquilo de que ela precisa neste momento. Ela precisa de si para a ajudar, para a deixar ir; é a única forma de a poder ajudar agora, deixá-la ir.”
A dor de cabeça era tão intensa que pensei que podia morrer antes da Barbara Ellen. Mas isso não aconteceu... Na noite seguinte, tinha recuperado o suficiente para dizer à minha filha que se ela estivesse farta de estar doente e quisesse partir, eu já não a tentaria reter. Ela segurou na minha mão e disse-me que esperaria por mim lá no sítio para onde quer que estivesse a ir, e morreu nessa manhã, nos meus braços, com a irmã Marian a segurá-la também, o pai igualmente ao seu lado.”
Página 167
"Uma das características intrigantes da neoplasia maligna da próstata é que enquanto a testosterona – a hormona que as pessoas foram levadas a acreditar ser responsável pela agressividade masculina – parece promover o seu crescimento, este cancro é mais tipicamente uma doença dos homens mais velhos. No entanto, a produção de testosterona do corpo diminui com o envelhecimento. Também não foi demonstrado que os homens com cancro da próstata tivessem níveis de testosterona no sangue mais elevados do que a média. Tal como acontece com os recetores de estrogénio no cancro da mama, parece que a sensibilidade das células tumorais às concentrações normais de testosterona deve ter sido alterada.
Tal como a secreção hormonal pelas glândulas suprarrenais e pelos ovários, a síntese de testosterona pelos testículos está sob o complexo controlo de retorno do sistema hipotalâmico-hipofisário no cérebro. Esta rede, altamente reativa ao stress e às emoções,
envia uma cascata de substâncias biológicas para a circulação. Os fatores emocionais podem influenciar diretamente o funcionamento da hormona sexual masculina para o bem ou para o mal – tal como a hormona feminina estrogénio dos ovários, ou a adrenalina, o cortisol e outras hormonas das glândulas suprarrenais, são afetados por acontecimentos psíquicos. Acontece que, numa pequena quantidade de doentes, a remoção cirúrgica da hipófise mostrou resultados positivos no tratamento do cancro da próstata."
Página 404
"Seja qual for a motivação da mãe, e por muito que a tenha manipulado para cuidar dele, a experiência proeminente de Jason é de uma falta de autonomia. Ele não tem tido capacidade de se afirmar abertamente. O seu anseio por um eu autónomo e a sua raiva em relação à mãe tomaram a forma de resistência – incluindo a resistência à sua própria saúde física. “Foi sempre como estar a ser sufocado”, disse ele a Heather. “Fizesse eu o que fizesse, parecia estar errado. Quando eu disse ‘deixa-me ir’, teria querido dizer ‘afasta-te. Deixa-me viver da forma como vou viver. Vou viver à minha maneira, e claro que vou cometer erros – toda a gente comete. Nunca me senti livre para cometer os meus próprios erros.’”
Se há uma lição a tirar da história de Jason e Heather, como de todas as histórias pessoais e todos os estudos que considerámos neste livro, é que as pessoas sofrem quando os seus limites são
esbatidos. Ao tratar Jason durante toda a sua vida como uma criança pela qual devia assumir toda a responsabilidade, Heather tem ajudado a impedi-lo de se tornar uma pessoa real. Reagindo como uma criança, Jason reteve-se a si próprio.
Em última análise, a própria doença é uma questão de fronteira."
⭐ O que este livro significa para mim
Este livro fez-me perceber melhor a ligação entre o que sentimos e o que o corpo acaba por expressar. Não no sentido superficial ou simplista, mas a partir de casos clínicos, padrões emocionais e histórias reais que mostram como a ausência de limites, o excesso de responsabilidade, a repressão emocional ou a necessidade constante de agradar podem ter impacto direto no corpo.
Não o li como uma explicação absoluta.
Li-o como uma peça importante para compreender comportamentos, escolhas e sintomas que tantas vezes ignoramos ou justificamos sem pensar. Trouxe-me consciência para observar melhor, fazer perguntas diferentes e olhar para o corpo como um sistema mais completo e sensível do que parece.
Fez-me refletir sobre o quão difícil é realmente respeitarmo-nos, sair de padrões em nome da nossa própria saúde. Sabemos que devíamos fazê-lo, mas enquanto a doença não chega, deixamos andar. Este livro alerta, tenta acordar-nos — mas também deixa claro o quanto esta tarefa é exigente, porque muitos dos nossos comportamentos vivem no inconsciente, em automatismos que nem percebemos.
Estar atento a nós mesmos é fundamental.
E este médico mostra, de forma direta e humana, a importância dessa atenção como forma de prevenção.
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©CatarinaMontenegro, 2026